quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Le Corbusier - a arquitetura moderna e os 5 pontos da arquitetura moderna - terceira parte

1 - Solo liberto ou caminhar livre
A partir da estrutura da figura 5, patenteada por Le Corbusier "Dom-ino", estrutura feita com betão de cimento armado, podemos a baixo custo elevar o edifício devolvendo ao ser humano a possibilidade de caminhar no solo. Veja-se esta elevação na figura 6.
Figura 6 (Le Corbusier - 1929 - Poissy, França)
Ao contrário, os tradicionais edifícios de pedra ou de tijolo, onde as paredes exteriores são elemento estrutural, não permitiam esta liberdade de projeto e enquanto edifícios impunham-se como obstáculos à circulação ao nível do solo. Vejam-se as figuras 7 e 8.
Figura 7
Ainda nos dias de hoje, não utilizando as possibilidades dos materias modernos, o projeto de arquitetura mantém-se frequentemente tradicional, sem as liberdades que os materiais modernos  permitem, como no exemplo da construção da figura 9 que poderia ser toda realizável em pedra e madeira. Será esta arquitetura de estilo moderno? Não cumpre os 5 pontos e embora contenha materiais de fabrico industrial, o processo de construção ainda é essencialmente baseado no trabalho manual, não industrial, sendo que o excesso relativo de tempo utilizado na construção encarece a obra, portanto, não se trata de arquitetura moderna.

2 - Plantas livres
Está compreendido pelas propriedades mecânicas do betão armado (reage à compressão e à tracção como um só material) que dentro do edifício com estrutura em betão armado como na figura 5, podemos usufruir de maiores áreas desimpedidas de elementos estruturais, permitindo maior liberdade de projeto. Facilmente as paredes dos pisos superiores deixaram de ficar necessariamente por cima das paredes dos pisos inferiores, que tradicionalmente suportavam o peso das paredes dos pisos superiores. Estas possibilidades foram chamadas de "planta livre", isto é, uma designação para a liberdade na divisão da área horizontal do pavimento num piso e também entre os pisos.

Na figura 10, ao nível do solo, no piso 0, vemos os pilares que elevam o edifício. Neste piso podemos incluir a garagem do automóvel e das bicicletas. Nesta maqueta, a fachada está aberta para podermos ver os pisos 1,2 e 3. No piso 1, à direita é a cozinha  e à esquerda a sala de comer e de estar. A maqueta da figura 10 é a obra da figura 11. Vemos na fachada esquerda da figura 11 dois pisos de caixilharia com vidro que na maqueta também se percebem. Voltando à figura 10, mostra-se que o pé direito da sala de estar no piso 1, é uma altura de dois pisos até uma varanda do quarto dos pais no piso 2. Sobre o muro da varanda interior existe uma porta de fole que permite a privacidade entre o quarto a as salas de estar e de comer. Dei este exemplo para demonstrar a plasticidade com que o betão armado se pode livremente moldar nas três dimensões geométricas. No piso 3 temos o quarto das crianças e um grande terraço aberto onde se pode brincar em segurança ao sol e ar livre, e estender a roupa.

A maqueta da figura 12 corresponde às três plantas da figura 13. Na planta do piso térreo podemos ver os "pontinhos" ou pilares dispostos com regularidade. Nestas plantas são visíveis as diferenças entre o piso térreo, o primeiro andar onde se desenvolve a habitação e um terraço interior, e o último piso de cobertura com terraço. As três plantas são diferentes, o que é exemplo de liberdade no projeto e utilização real do espaço segundo as necessidades. A edificação está suportada por uma malha cúbica regular de pilares e vigas que procuram a modularidade a caminho da pré-fabricação industrial, a caminho da possibilidade de maior criatividade, melhor qualidade e baixo custo, "O espírito daquele que dispõe de grandes meios técnicos é capaz de conceber livremente".

Tradicionalmente, dispúnhamos de muito menos liberdade como podemos ver na figura 14. Trata-se de uma planta, semeada de colunas estruturais, numa basílica em pedra.


Figura 14

Habitualmente o projeto de arquitetura ainda utiliza de forma reduzida as possibilidades da planta livre, como se depreende neste apartamento de cidade na figura 15, planta repetida piso sobre piso, apesar de as paredes não terem função estrutural, resultando nos tristes volumes da figura 22.


Figura 15

3 - Fachadas livres
Retomando a figura "Dom-ino" facilmente descobrimos que podemos aplicar diversas fachadas independentes da estrutura solucionando com muita liberdade necessidades de ventilação, vistas, vento, segurança contra intrusão, iluminação natural, etc. Para ilustração, apresento na figura 16 uma fachada de vidro. Repare-se nas colunas estruturais posicionadas no interior do edifício, afastadas do bordo do pavimento onde se fixaram os vidros da fachada livre. Escolhi esta fotografia, disponível na internet, apenas para ilustração da independência estrutural da fachada sem querer apresentar um exemplo de arquitectura porque neste caso a devassa da privacidade e as dificuldades térmicas parecem evidentes.

Na arquitetura tradicional estávamos mais limitados pela função estrutural das paredes, com pilares e colunas embebidos, como se pode ver na figura 17. E lembram-se das limitações dos contra-fortes?


Figura 17

Comparativamente ao nosso tempo, nas fachadas das catedrais góticas tínhamos possibilidade de ... fazer apenas ornamentação, fazer floreados, recortados, cheios e vazios, como se constata na figura 18.

4 - Janelas livres
Em consequência da fachada livre, temos a liberdade de projetar janelas de várias formas e dimensões. Na arquitetura tradicional, dispondo unicamente da pedra, do tijolo e da madeira, era impossível podermos construir a janela horizontal.Confronte-se as figuras 19 e 20 com as figuras 17 e 18. Nas anteriores figuras as janelas são elementos entalados entre os suportes verticais enquanto numa fachada independente da estrutura como nas figuras 19 e 20 podemos construir uma janela horizontal, naturalmente adaptada ao campo visual do plano horizontal dos nossos olhos.

Segue-se na figura 21 uma janela horizontal entre os interiores da habitação e um lago. Considere-se um lago tranquilo de horizonte distante e imagine-se a vista. Com esta janela pode-se olhar a linha do horizonte, sem obstáculos à direita ou à esquerda dos olhos. A luz do sol penetra e distribui-se pela sala de banho, pelo quarto de dormir, pela sala, por todas as divisões, iluminando e eliminando os cantos escuros.


Figura 21 (Le Corbusier - 1925 - Corseaux, Suiça)


Temos a obrigação de perguntar aos arquitetos das nossas cidades se, no caso da figura 22, se esqueceram das teorias da escola ou a questão é outra?

5 - Coberturas livres
Com as lages de pavimento de betão armado com revestimento térmico e impermeabilizadas, libertos dos telhados, beirados e cornijas, podemos usufruir de terraços e recuperar parte do espaço ocupado pelo edifício no solo. Ver exemplo de terraço na figura 23. No habitual quintal com 250 a 400 metros de superfície onde a vivenda ocupa metade ou mais do quintal, façam-se as contas, se em vez do telhado se construísse o terraço, a quantidade de plano de uso que se recuperaria, beneficiando da atmosfera, da paisagem e do sol.

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